
O tema da 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia: “Planeta Água: a cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território” ecoa diretamente nos resultados de um estudo científico que dimensiona a perda acelerada de gelo nas geleiras e calotas polares e seus impactos globais.
Trata-se de um trabalho inédito publicado por pesquisadores do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), com base nos dados consolidados do World Glacier Monitoring Service (WGMS), demonstrando que as geleiras do mundo perderam 9.179 gigatoneladas (Gt) de massa entre 1976 e 2024. Desse total, 98% foram perdidas após 1990, e 41% apenas desde 2015.
Para dimensionar essa magnitude: 1 gigatonelada equivale a 1 trilhão de quilos. A perda acumulada nas geleiras desde 1990, cerca de 9.000 Gt, corresponde a aproximadamente 18 mil vezes a massa de toda a população mundial atual. Trata-se de uma transformação geofísica em escala planetária, mensurável por satélites, monitoramentos de campo e séries históricas que convergem para o mesmo diagnóstico: o sistema climático está mudando rapidamente.
Nas grandes calotas polares da Antártida e da Groenlândia, o cenário é igualmente alarmante. Desde 2002, aproximadamente 8.000 Gt de gelo foram perdidos, segundo dados de satélites da NASA. Em pouco mais de duas décadas, a perda registrada nas calotas quase se equipara ao que as geleiras perderam ao longo de cerca cinco décadas, um indicativo de aceleração no ritmo anual de degelo.

Um planeta em transformação – O novo levantamento ganha relevância em um momento em que o debate climático ocupa posição central na agenda pública brasileira, especialmente após a COP30, que avançou nas discussões sobre mitigação, adaptação e justiça climática.
“Há uma mudança concreta no funcionamento do planeta. O que antes era tratado como um cenário futuro já se manifesta no presente, com sinais claros e cada vez mais frequentes. Recordes de temperatura, episódios de chuva intensa, enchentes e estiagens prolongadas deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da rotina”, destaca o professor Ronaldo Christofoletti, coordenador do estudo, produzido pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica com a equipe do Programa Maré de Ciência da UNIFESP e do Projeto Com-ANTAR, integrante do Programa Antártico Brasileiro (Proantar).
“A crise climática não é mais um debate abstrato, com efeitos que já alcançam os centros urbanos, pressionam sistemas de infraestrutura, impactam a economia e trazem consequências diretas para a saúde da população. Ao mesmo tempo, há um processo menos perceptível ao público, mas decisivo para o equilíbrio global: a aceleração do derretimento das geleiras e das grandes massas de gelo polares”, ressalta André Pardal, bolsista de Pós-Doutorado Júnior do CNPq, que assina o estudo juntamente com Christofoletti.
O que isso tem a ver com o Brasil?
Quando há alterações no entorno da Antártica, especialmente nas correntes marítimas, todo o mecanismo de redistribuição de calor entre os hemisférios pode ser impactado.
Esse desequilíbrio tem potencial para modificar padrões climáticos no Atlântico Sul e, consequentemente, no Brasil. Mudanças no comportamento das massas de ar e das correntes oceânicas podem se traduzir em variações no regime de chuvas, maior frequência de extremos climáticos e alterações na intensidade de frentes frias.
Além disso, o avanço do nível do mar, associado ao derretimento acelerado das grandes camadas de gelo, impõe desafios concretos às áreas costeiras. Municípios litorâneos, instalações portuárias e ambientes marinhos passam a enfrentar riscos crescentes.
Em um país com extensa faixa costeira e forte dependência dos recursos marinhos para abastecimento, logística, geração de energia e equilíbrio climático, o que se passa nos polos integra diretamente a agenda estratégica nacional. Não se trata de um evento distante no mapa, mas de um processo com implicações reais para o desenvolvimento e a segurança ambiental do Brasil.

Ciência brasileira na Antártica – Criado em 1982, o PROANTAR garante ao Brasil a condição de Membro Consultivo do Tratado da Antártica desde 1983 e articula ciência, preservação ambiental, logística e política externa.
O Projeto Com-ANTAR, liderado pela UNIFESP, atua na interface entre ciência e sociedade, apoiando jornalistas com acesso a pesquisadores, imagens de campo e esclarecimentos técnicos.
Os dados mais recentes reforçam uma conclusão já sustentada por décadas de monitoramento: o sistema polar responde de forma rápida e intensa ao aquecimento global. E, em um planeta interconectado, o que acontece no gelo da Antártica e da Groenlândia reverbera no cotidiano brasileiro, do regime de chuvas à segurança costeira.
O degelo, portanto, não é apenas um fenômeno remoto. É um sinal claro de que o clima do século XXI já está em transformação.
Quer saber mais?
Acesse o estudo PLANETA EM DEGELO: COMO A PERDA DE GELO POLAR ESTÁ REDEFININDO O CLIMA E O FUTURO DO BRASIL, clicando aqui.